Igreja, Usura e Capitalismo
No dia 14 de fevereiro de 1130, Gregorio de Papareschi inicia seu papado como Inocêncio II. Seu papado ficaria marcado pela instituição do celibato, mais também, pelo combate a usura.
A prática da usura surge junto com uma nova dinâmica que se instala pela Europa entre os séculos XII e XIX, após os períodos de guerras por conta das expansões germânicas durante os primeiros 500 de formação do que hoje conhecemos como Alta Idade Média.
Segundo o historiador Jacques Le Goff em seu livro, a bolsa e a vida, a usura tornou-se um fenômeno de extremo perigo para uma “cristandade, no auge da vigorosa expansão que empreendia desde o Ano Mil, gloriosa” viu neste fenômeno, o perigo da difusão de uma nova economia monetária que ameaçava os velhos valores cristão. Vemos assim, segundo o mesmo historiador, “o parto do capitalismo”
A pratica da usura, ou a cobrança de juros, colocava em check todo uma dinâmica do pecado, da salvação e do “bem-estar” segundo uma instituição que formou em grande medida parte dos valores do mundo ocidental. Com o surgimento de um novo personagem, o burguês, o comerciante que viajava de feudo em feudo, não, ainda, o dono dos meios da produção, viu-se ali, no nascer desse novo personagem histórico, uma nova mentalidade, novas praticas e técnicas que sempre foram condenadas pela igreja, a pergunta que se fazia era: é possível servir a dois senhores?” ou “Como uma religião que opõe tradicionalmente Deus e o dinheiro, poderia justificar a riqueza, sobretudo a riqueza mal adquirida?”
A resposta para tais perguntas tornou-se relativamente fácil de se responder, a prática da usura tornou-se pecado, e o usurário o pecador. Mas como distinguir, então, o dinheiro ganho de forma licita ou ilícita, no caso, a partir da prática da usura, em um mundo onde o comércio volta a surgir, as cidades começam a renascer, e o mundo nos feudos já não se torna tão atraente para boa parte dos servos que ali viviam que preferiram enfrentar as cruzadas em busca de riquezas do que a permanecer entre os muros a serviço de um senhor que mal trabalhava pelo bem estar do seu reino?
O que talvez Inocêncio II não imaginou é que cerca 900 anos depois de sua tentativa de impedir os avanços das práticas da usura, hoje em pleno século XXI o mundo ocidental nem se quer se imagina viver em uma realidade no qual o capitalismo não exista. Claro que ele também não imaginaria que sua igreja também mudaria bastante ao longo desses 900 anos, sendo ela mesma divida poucos seculos depois do inicio do seu papado. O que também não imaginou, é que mesmo depois de 900 anos, algumas perguntas ainda não foram de fato respondidas, mas que hoje, em muitos casos, já são facilmente aceitas. A usura, veio pra ficar, se estabelecer e modificar nosso modo de viver e pensar…
O mundo capitalista ao qual vivemos hoje, nasce, dessa forma, a partir da superação de diversos obstáculos, mudanças de mentalidades e hábitos. Le Goff nos lembra que a história é feita por homens, e a história são os homens. Desta forma, ainda nas palavras de Le Goff ” Uma andorinha não faz verão. Um usurário não faz o capitalismo. Mas um sistema econômico substitui um outro apenas no final de uma longa corrida de obstáculos de todas as especies”
Será que um dia superaremos, como homens da história que somos, agentes transformadores, assim como foram os usurários no século XII, as malácias dos ideários e ideologias dos altos jurus bancários do século XXI para um mundo onde o preço seja mais justo e as cobranças mais humanas?
A resposta, infelizmente não teremos tempo de saber, mas as ações que poderão modificar o futuro da humanidade começam agora…
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